QUE SIGNIFICA A PAIXÃO DE JESUS…?

Ao chegarmos ao final do Tempo da Quaresma e a iniciarmos a Semana Santa, recordamos que um homem judeu, há 2000 anos, em Jerusalém, morreu cravado numa cruz, conhecido pelo nome de Jesus de Nazaré, o profeta da Galileia, um homem que passou fazendo o bem e “curando os que eram oprimidos pelo mal, porque Deus estava com Ele.” (Act. 10, 38). Vamos conhecê-lo a partir das imagens dos Evangelhos. É sempre o mesmo Cristo, sempre a mesma imagem, mas – Marcos, Mateus, Lucas e João – cada um deles esculpiram o rosto de Cristo com o seu selo com o seu estilo próprio.

O Cristo Doloroso de São Marcos
O primeiro é Marcos, que nos surpreende com uma imagem do Senhor muito encurvada. A cruz é tão pesada, ao ponto de O fazer cair por terra, uma e outra vez. O rosto está profundamente ensanguentado, o coração partido…
A cena é cruel, desconcertante e escandalosa. Mas Jesus, cala-se… não grita, nada diz. Só fala para dizer: “A minha alma está numa tristeza de morte…” (Mc. 14, 34). O silêncio de Jesus surpreende o sumo-sacerdote, aquele que perante a gravidade das acusações lhe pergunta: “Não respondes nada ao que estes testemunham contra ti?” (Mc. 14, 60). O mesmo diante de Pilatos, que lhe volta a perguntar: “Não respondes nada? Vê de quantas coisas te acusam.” (Mc. 15, 4-5).
Nós mesmos ficamos surpreendidos quando, na confusão da cena, Pedro corta a orelha ao criado do sumo-sacerdote, e nem sequer aí escutamos uma palavra da boca do Senhor, testemunha silenciosa daquele horror à sua volta. (cf. Mc. 14, 47)
São Marcos empenha-se por nos informar de como Jesus é vítima de ultrajes, burlas, insultos… da parte de uma comandita de gente com espadas e varapaus, e da parte dos guardas e dos soldados, da parte dos sacerdotes e dos anciãos (cf. Mc. 14, 43; 15, 16-19. 29-32), da parte, no fundo, de uma multidão enfurecida que grita, uma e outra vez, «crucifica-O» e prefere a liberdade do insurrecto Barrabás à de Jesus (cf. Mc. 15, 6-15).
Os próprios discípulos abandonaram o Mestre “Todos os seus discípulos o abandonaram e fugiram…” (Mc. 14, 50), sentencia Marcos ao narrar a prisão. Já antes, enquanto Jesus orava com lágrimas de sangue, eles dormiam, rendidos pelo sono. Pedro segue-o, sim, mas de longe e quando se vê identificado como um dos do grupo de Jesus, nega três vezes – “Eu não conheço esse homem…” (Mc. 14, 66-72).
Chegados ao calvário, só “algumas mulheres contemplavam a cena de longe” – também de longe quer realçar São Marcos. Nem sequer menciona a presença de Sua Mãe, Maria.
As últimas palavras de Cristo na cruz são simplesmente arrasadoras, uma pergunta que é também uma constatação da experiência e do abandono: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?” (Mc. 15, 34).
Este é o Cristo que São Marcos nos apresente de forma fria e objectiva, como que a querer realçar a realização desconcertante do desígnio de Deus e apresentar a Paixão e a Cruz como escândalo, como algo sem sentido. Ao contemplar esta figura de Cristo, esculpida por São Marcos, constatamos o desconcerto da dor e do sem sentido da morte. Este evangelista faz-nos notar que o mal, que visita o homem de maneira irremediável, nos arrasta na impotência e desestabiliza os nossos esquemas mentais e emocionais… Mais ainda: há ocasiões em que Deus se cala e parece afastado de todos nós. Aprendemos aqui que há uma palavra de Deus que tem a forma de silêncio e que há uma presença de Deus que tem a forma de ausência sentida e ansiada…

O Cristo inocente de Mateus
Vejamos agora a segunda imagem. O seu autor é Mateus. Aprendeu na mesma escola de Marcos. Aliás, deveriam ter esculpido as suas imagens, um junto ao outro.
Em Mateus, sobressai a traição de Pedro (cf. Mt. 26, 69-75). Também aqui Jesus volta a dizer sem reparos: “Sinto uma tristeza de morte” (Mt. 26, 38). As palavras finais são também as mesmas: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt. 27, 46).
Mas se virmos com mais detalhe, veremos que Mateus aliviou o dramatismo dos factos. Assim, a título de exemplo, quando Pedro, com a sua espada, corta a orelha do criado do sumo-sacerdote, Jesus não permanecerá impassível; falará como Mestre que instrui: “Pedro, mete a espada na bainha, porque quem mata com a espada, com a espada morre” (Mt. 26, 52). Magnifica lição de Jesus para dizer que a violência cresce em espiral.
Na mesma linha de aliviar, soa agora uma palavra, que é como uma contra sentença perante a das autoridades: «inocente!». Assim, a mulher de Pilatos quer dissuadir o seu marido para que solte Jesus: “Não te metas com este justo” (Mt. 27, 19). E o próprio Judas, antes de entregar-se na forca, dirá aos gritos: “Pequei entregando um inocente…” (Mt. 27, 4).
Finalmente, para São Mateus aquela situação, à primeira vista desconcertante e contraditória, tem um sentido: responde ao desígnio de salvação do Pai; e por isso, repetirá uma e outra vez: “Segundo as Escrituras, isto tinha de acontecer” (Mt. 26, 54), “tudo isto ocorreu para que se cumpra o que escreveram os profetas” (Mt. 26, 56), ou “assim se cumpriu o anunciado pelo profeta Jeremias” (Mt. 27, 6).
Com estes traços, São Mateus faz-nos dar um passo definitivo na compreensão da cruz de Jesus e também das nossas próprias cruzes. Por uma parte, da ideia de que Jesus é inocente, deduz-se que a sua morte manifesta a alguns como culpáveis. Jesus é vítima porque outros são verdugos. Aprendemos assim que nem todos os males são inevitáveis e, em consequência, que é possível lutar contra o mal, que a injustiça tem de ser atacada. Que há que denunciar os culpados e não ficar com os braços cruzados. Dito pela positiva: que há que se pôr da parte do inocente e combater a favor do bem.
Aprendemos ao mesmo tempo, que “não há mal que não venha por bem”. Que se a morte de Jesus tem um sentido no plano da salvação de Deus, também nós teremos de procurar o sentido da nossa dor. Que se “era necessário que o Messias padecesse para entrar na Sua glória”, também os nossos padecimentos nos preparam e nos purificam enquanto corrigem a nossa auto-suficiência, denunciam a nossa superficialidade e nos convertem em grão de trigo que, se morre, pode dar muito fruto.

O Cristo misericordioso de São Lucas
Vejamos agora a terceira imagem de Jesus Cristo. O seu autor chama-se Lucas. Observemos que este não trabalhou na mesma oficina de Marcos e Mateus. A imagem perdeu o seu encurvamento. Levanta a cabeça e levanta os olhos do chão para fixar-se no que está à Sua volta. Jesus já não é só uma vítima impassível. Eleva-se com superioridade, como protagonista activo da cena. Manifesta-se como um Mestre.
São Lucas, mais abertamente do que Mateus, proclama, uma e outra vez, a inocência de Jesus na boca do próprio Pilatos (cf. Lc. 23, 4. 22. 24). Agora suavizam-se os detalhes cruéis e ofensivos, como burlas, insultos, zombarias…Há a preocupação em dizer que todos o abandonaram.
E ao pobre criado do sumo-sacerdote, que até agora tínhamos com uma orelha perdida, Jesus – não tanto para demonstrar o seu poder com um milagre, mas para manifestar a sua generosidade numa hora de tanta crueldade –, cura a orelha (cf. Lc. 22, 49-51). Trata-se de um Jesus compassivo e misericordioso.
São significativas estas três palavras de Jesus, que São Lucas, e só ele, apresenta.
A primeira é às mulheres de Jerusalém: “não choreis por mim, chorai por vós próprias e pelos vossos filhos” (Lc. 23, 27-28). Compaixão extrema a de Jesus, que se preocupa mais com a dor dos outros de que com a sua própria dor.
A segunda palavra, dirigida ao Pai, pede perdão dos seus malfeitores: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o fazem” (Lc. 23, 34). Misericórdia infinita.
A terceira palavra, ao ladrão arrependido: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc. 23, 43). O amor de Jesus rompe as barreiras da morte…
E como um detalhe final e muito significativo, as últimas palavras de Jesus soam de outra forma. Recordemos que até agora, segundo São Mateus e São Marcos, Jesus tinha gritado: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Agora não se grita o abandono, agora se proclama a confiança: “Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 23, 46).
O «Cristo» que nos oferece o terceiro evangelista é mestre e modelo de sofrimento. A sua paixão converteu-se em compaixão. A dor não se encurvou sobre si. Pelo contrário, tornou-o ainda mais compassivo. Porque sofreu, Ele é capaz de compadecer-se dos seus irmãos (cf. Heb. 4, 15).
Que bem nos faz aprender esta lição para que a dor, no lugar de curvar-nos sobre nós próprios e fazer-nos derrotados e receosos, se converta numa ocasião de bondade e de ternura, de abandono nas mãos do Pai e de confiança na proximidade e compaixão de Jesus.

O Cristo triunfante de São João
Vamos para a quarta imagem e última de Cristo: a de São João. Aprendeu juntamente com São Lucas, mas não a trabalharam um junto ao outro.
Quanto mudaram as coisas desde aquela primeira figura de São Marcos. Ali era Jesus quem caía em terra. Agora são os soldados os que caem. Recordemos por um momento a cena: chegam os soldados e os guardas para prender Jesus. Ele pergunta: “A quem procurais”. Responderam: “A Jesus de Nazaré”. E enquanto Jesus lhes dizia: “Sou eu”, começaram a afastar-se e a caírem por terra (cf. Jo. 18, 3-6).
João sublinha com gosto a consciência de Jesus no momento da Sua paixão. Disse, por exemplo: “sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo. 13, 1), ou, de forma semelhante, “Jesus que sabia perfeitamente tudo o que se ia passar” (Jo. 18, 4). Não só tinha consciência, mas também uma inteira liberdade; já antes da Paixão, Jesus tinha dito: “A mim ninguém me pode tirar a vida, eu a entrego livremente” (Jo. 10, 18).
Esta generosidade de Jesus na hora suprema – a hora das grandes verdades e das últimas vontades – tem um aspecto sensivelmente enternecedor. Veja-se o texto literalmente: “Junto à cruz de Jesus estava a Sua Mãe. Jesus, ao ver a sua mãe e, junto a ela, o discípulo a quem tanto queria, disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe»” (Jo. 19, 25-27)
Herança imerecida, presente do próprio Deus: Maria, tua mãe, é também a minha mãe. Bendita seja mil vezes tua Paixão, Senhor Jesus, que nos trouxe esta abundância de graça e de misericórdia.
Nestas coordenadas, para o quarto evangelho, Jesus mais que um réu é um rei. A cruz mais do que um castigo é um trono. E a morte não é a derrota, mas sim a vitória. Por isso, as últimas palavras de Jesus são estas: “Tudo está consumado” (Jo. 19, 30). A morte, com efeito, é a coroa duma vida que o próprio Jesus tinha resumido assim: “O meu alimento é fazer a vontade do Pai que me enviou para realizar a sua obra” (Jo. 4, 34).
Depois do «tudo estar consumado», o nosso autor anotará o seguinte comentário: “E inclinando a cabeça, entregou o Espírito” (Jo. 9, 30). Muito propenso a entender-se com um duplo sentido, pois com estas palavras, João refere-se tanto à morte física de Jesus – entregou o espírito no sentido de que morreu –, como à doação de si próprio que Jesus realiza no momento da morte – entregou o Espírito no sentido de que nos entregou a sua vida e nos ofereceu o seu Espírito. Isto é magnífico: o Calvário é o Pentecostes.
De igual modo, voltará a utilizar um duplo sentido quando nos narra que um soldado trespassou o Seu lado com uma lança (cf. Jo. 19, 34 a). Tal gesto não serve para acelerar a morte. Mas, sobretudo a certifica. O texto segue imediatamente: “e no mesmo instante do seu costado brotou sangue e água” (Jo. 19, 34 b). Água: o Baptismo. Sangue: a Eucaristia. De facto, do coração de Cristo nascem os sacramentos da Igreja.
São João deixa-nos às portas da ressurreição, ao apresentar a morte de Cristo na cruz como oblação, sacrifício e oferenda. A cruz não é um pau seco, mas uma árvore florida…!

(Paróquias de Carvalho, Friúmes e Penacova – Quaresma de 2011)

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