A felicidade de ser amado!

Noutro dia, alguém se abeirou de mim e perguntou-me:
– É mesmo verdade que o senhor Padre se vai embora?
Respondi com um sorriso:
– É verdade. Assim Deus manda!
A senhora ouviu e, com uma cara de quem não estava conformada, disse-me:
– Mas é o Senhor Bispo que tem a ver com isso, não é…?!
E começou a dizer-me, como que a rezar, da sua incompreensão pelo facto de sair destas Paróquias se estava tão bem… e muitas outras coisas!
Escutei com atenção todas as palavras que aquela boa mulher me disse. No fim, rematou:
– Olhe, Senhor Padre, pelo menos que o balanço seja positivo. Adeus!
E lá foi ela, com olhar triste por ter percebido que eu não estava de acordo com as suas razões, embora as percebesse como expressão de carinho e amizade por mim que fui seu Pároco durante quatro anos.
Entretanto, comecei a pensar…
Quando cheguei a Penacova, a 30 de Setembro de 2007, trazia a certeza firme de que era Deus e o Seu projecto o que importava verdadeiramente na minha vida. Hoje, ao final destes quatro anos, saio com a mesma certeza, mas ainda mais firme e clara.
Com efeito, na vida de um padre o que importa verdadeiramente é a sua relação com Aquele que o chamou e continuamente o assiste com a Sua graça para que realize a sua missão de servir a pessoa, o mundo e a Igreja, por amor.
No momento em que preparo a minha mudança, para assumir novas tarefas ao serviço da Igreja de Coimbra, queria afirmar-vos isto mesmo. Sou e estou muito feliz por fazer, mais uma vez, o que Deus me pede, mesmo que seja difícil e doloroso a separação de tantos de vós!
Afinal de contas, tudo o que vivemos e crescemos juntos, nestes quatro anos, foi por causa e por graça deste Deus que não se cansa de nos amar. E passado este tempo, sinto-me verdadeiramente apaixonado por esta vida a que Ele me chamou um dia, apesar das minhas fragilidades e misérias.
      Sinto-me forte ao perceber que quase tudo em mim é dom da Sua bondade. Sinto uma alegria imensa por saber e perceber, cada vez melhor, que o meu ser padre não é mais do que ser instrumento de amor que Deus usa ao serviço de todos aqueles aos quais me envia. No fundo, sinto-me verdadeiramente feliz, porque o Seu amor nunca deixou de me inundar, mesmo quando não o senti, por causa da escuridão que a vida me traz ou eu provoquei.

Que bom é ser feliz porque se é amado por Aquele que ama sempre e plenamente! AFINAL, SER LIVRE É SER AMADO POR AQUELE QUE NOS LIBERTA!

Contudo, gostava ainda de vos dizer que, ao longo destes anos, tive como Pároco algumas preocupações. Aliás, mais que preocupações, foram objectivos de acção pastoral que atravessaram todas as acções que realizámos e estiveram presentes em quase todos os momentos em que fomos e fizemos Igreja.
Um deles foi o de sermos capazes de perceber que Deus é a «meta». Mas, só alcançaremos esta «meta» quando toda a nossa vida estiver marcada pelo pulsar da caridade e embebida na verdade que Ele é. Mais: sem termos definido onde queremos chegar e Aquele que queremos alcançar, andaremos perdidos e ficaremos desnorteados, aos encontrões uns aos outros, sem sentido e direcção para o que vivemos, dentro e fora da Igreja.
Outro objectivo foi a importância da comunhão. Tudo, absolutamente tudo, o que fizemos e experimentámos, desde festas a reuniões, celebrações e encontros, teve como primeiro objectivo uma maior vivência da comunhão entre todos e cada um de nós. Mais, pretendeu-se sempre proporcionar que toda a experiência de Igreja se vivesse neste no patamar da partilha, onde seríamos capazes de nos desinstalar e sair ao encontro dos outros, para os servir na alegria de viver. Acho que ficou muito por fazer. Sem a experiência de comunhão a nossa vida de fé, em Igreja, é como uma casa sem alicerces…! A fé sem experiência concreta e comprometida de comunhão, não chega a dar «saber» à vida e muito menos «sabor» ao viver.
Por fim, houve a preocupação constante da fé significar uma vida de verdade. Para isso, a insistência em sabermos começar tudo a partir de dentro de nós e do nosso passado. Isto é, assumir a história de cada um e a identidade própria de todos. Só na verdade do que fomos e somos, poderemos perceber a beleza da acção de Deus e a marca do Seu amor em nós. Nos milhares de horas de confissões e atendimentos; nas reuniões de formação, programação e avaliação; em muitos outros momentos, houve esta preocupação de aprofundar e recordar… Mas, esta tarefa ainda está longe de se cumprir em muitos de nós. A insistência em não aceitarmos a diferença dos outros; em não abandonarmos a constante crítica aos seus defeitos e feitios; o negarmo-nos a sofrer por nós próprios e pelas nossas falhas, usando as máscaras da mentira e da falsidade; são exemplos que nos dizem que temos ainda muito para andar.

Termino com uma palavra especial para as crianças. A sua pureza fez-me saborear a beleza do ser humano. A sua alegria deu-me a força de viver. A sua transparência fez-me captar a capacidade que todos temos de amar. A sua simplicidade deu-me esperança que o amanhã será diferente e valeremos por aquilo que formos e não pelo que tivermos. Enfim, nas crianças, descobri a beleza do rosto de Deus! Mas, o seu sofrimento também me preocupou e doeu-me, pois deparei-me com o facto de serem injustiçadas e vítimas caladas e escondidas das nossas correrias e loucuras, superficialidades e maldades.
Termino por vos dizer que a todos levo no coração, porque sois e estais no coração de Deus! Nada mereço de reconhecimentos e homenagens. Abomino todos os que se deixam iludir por essas coisas! Deus merece muito mais…! Foi por Ele que tudo fiz e continuarei a fazer. Peço-vos só oração por mim, mas sobretudo, pelo Diácono João Pedro – rezai muito por ele –, pelo Senhor Padre Valentim e pelo Senhor Padre Frade, amigos verdadeiros e fiéis. Eu continuarei a rezar por vós e pelos vossos.

P. Rodolfo Leite

One thought on “A felicidade de ser amado!

  1. peço-lhe que aceite que marcou muita gente pela positiva, deixa muitas saudades, também o fizemos pelo Senhor Jesus,mas o senhor foi e é um grande lider. Se um dia precisar de si, procurá-lo-ei.

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