Testemunhas

1.Com o mês de Junho começam o verão e as festas dos santos.

Durante o Natal e as semanas que o antecedem, a Igreja procura fazer convergir a atenção dos fies para o mistério da Incarnação de Jesus. Depois de fevereiro, e ainda com mais esforço, tudo converge para o mistério da Páscoa, seja na fase penitencial (Quaresma), seja na celebração da Páscoa desde a Semana Santa até ao Pentecostes.

Passados os dois acontecimentos da Incarnação e Redenção, que são como que o eixo da vida cristã, celebra-se o Tempo comum, com uma grande quantidade de festas em honra dos santos. Mesmo assim, os domingos são dias dedicados a Jesus ressuscitado, são sempre «o dia do Senhor».

2. O mês de junho é, no calendário cristão, o mês dos «santos populares»: Santo António, S. João Baptista e S. Pedro.

Desde que me habituei a raciocinar sobre as coisas da fé, sempre me impressionou que se chamem populares a estes três santos e não aos outros. Não pode ser por o povo gostar mais deles que dos outros, pois, nesse campeonato, quem ganha é Nossa Senhora, a mais popular de todos. Também não pode ser por terem sido eleitos pelo voto do povo, porque quem canonizou S. António foi o Papa Gregório IX, logo no ano a seguir à sua morte em 13.6.1231, e quem declarou santos a João Baptista e a Pedro foi o próprio Jesus Cristo.

Donde vem então essa designação de populares dada aos três santos de junho? 

Isso nasceu, em grande parte, de uma destas curiosas influências da história. O mês de junho é nesta zona do mediterrâneo o tempo do solstício do verão, isto é, o mês dos dias maiores, o mês em que o sol atinge o ponto mais alto e as noites são pequeninas. Isso bastou para que os povos pagãos, que prestavam culto ao sol, saltassem de alegria e acendessem fogueiras nas poucas horas da noite para dançarem em honra do sol. Quando chegou o cristianismo e a Igreja colocou nesse mês as festas dos três santos, eles beneficiaram da alegria anterior, e as antigas fogueiras, acesas para desfazer a pequena noite e dilatar o dia durante 24 horas, passaram para a festa dos santos.

Os três são populares em toda a parte, mas cada terra tem o seu preferido: para Lisboa e Vila Real, é o Santo António; para o Porto e Braga, é o S. João; para a Póvoa de Varzim, é o S. Pedro. Em todas essas festas o arraial é muito semelhante: arcos e flores, marchas noturnas ao ar livre, danças e namoricos.

3. Se passarmos da influência das festas pagãs para a vida real de cada um deles, encontramos a verdade cristã, diferente dos folguedos e da alegria pagã.

S. João trouxe, de facto, pelo seu nascimento e pela sua pregação, a alegria cristã da chegada do Messias. (Há algumas pinturas antigas que evocam essa relação pessoal dos dois primos por meio de dois Meninos se abraçam, vestidos um deles com uma capa de rei e uma flâmula branca, e o outro com uma pele de camelo aloirado e um cordeiro aos pés. São um mimo de arte).

Santo António trouxe a alegria aos povos do que é hoje o norte de Itália e o sul de França por os libertar de uma seita religiosa anticristã chamada albigenses e dos agiotas que exploravam o povo com juros no nascimento das primeiras cidades medievais. Como morreu em 13 de junho, Santo António fica bem neste mês.

S. Pedro é que parece não ter nada de popularucho, nem na vida nem na morte. A vida foi a de um pescador modesto, mais modesto que João e Tiago, cujo pai Zebedeu tinha barcos com assalariados, e o leito de morte foi uma cruz em Roma, no tempo de Nero. Foi sepultado numa antiga colina de Roma, onde hoje é o Vaticano, e os restos do antigo sepulcro ficam na perpendicular do atual altar mor de Basílica de S. Pedro.

Mas a simplicidade de caráter e a humildade de Pedro, além das chaves de porteiro do Céu, cedo despertaram o afeto e o carinho do povo cristão.  

 4. Por tudo isto, o sol que iluminou a vida destes homens e os fez deixar a sua terra de origem para viverem e sofrerem até morrer longe da suas pátria, chama-se Jesus de Nazaré. Os santos são «testemunhas» de Jesus morto e ressuscitado, testemunhas de Jesus não somente por dizerem o que Jesus ensinara mas sobretudo porque reproduziram na sua vida o que Jesus fez e disse. É isso que significa a palavra «mártir».

O mártir não é propriamente um sofredor, mas é sobretudo a testemunha de um grande amor. Podemos, por isso, dizer que todo o cristão é uma «testemunha», um «mártir», ainda que nem todos cheguem ao derramamento de sangue. Que o digam os pais e mães de família que levam a sério o seu casamento, os padres e bispos que assumem por inteiro o seu ministério, os leigos que querem manter a honestidade nos seus negócios. Por esse motivo, tanto nas festas dos santos como nas exéquias dos cristãos, vai sempre à frente a cruz pascal, e, em cada dia, fazemos o sinal da Cruz, ou seja, o sinal da Páscoa de Jesus.

 Joaquim Gonçalves, Bispo emérito de Vila Real 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s