O acolhimento pastoral

Categoria de topo: Correio de Coimbra
Categoria: Opinião
Publicado em sábado, 08 novembro 2014 16:42
Escrito por Rodolfo Leite

Pe. Rodolfo Leite

D_manuel_quintas_familia É inegável a urgente tarefa de promover nas comunidades cristãs o«acolhimento pastoral». Este não pode ser mais um «serviço», como tantos outros, estrategicamente bem planeado, somente com a finalidade de fazer sentir bem aqueles que se aproximam da Igreja, normalmente ou em momentos determinados das suas vidas.

O «acolhimento pastoral» também não pode ser organizado nem estruturado como uma «arte», à maneira de «marketing», para que o outro se torne «dócil» à proposta evangelizadora e vá pondo de lado as suas resistências, complexos, ou até marcas problemáticas que porventura possam existir em relação à fé e à própria Igreja.

Aliás, se o «acolhimento pastoral» não é adequada e verdadeiramente vivido pela comunidade cristã, pode ser um perigoso meio de «formatar» e de «encarreirar» os que chegam de fora e de novo a ela, não permitindo a autêntica conversão, comunhão e missão dos mesmos à pessoa de Jesus Cristo.

Um texto bíblico sugestivo que deve servir de base norteadora para a vivência do «acolhimento pastoral» é o que narra o encontro de Jesus com Zaqueu (cf. Lucas 19, 1-10). Destaquem-se dois aspetos do referido texto. O primeiro é o facto de Zaqueu querer ver quem é Jesus… só quer ver, pois provavelmente o que ouviu dizer d’Ele, não foi suficiente para ter consciência que está «procurando» a Paz, a Verdade e um sentido mais digno para a sua vida. O segundo é o facto de Jesus ver quem é Zaqueu… sem mais, reclamando proximidade, pedindo-lhe que desça depressa, e comprometendo-se a concretizar essa proximidade, querendo mesmo ficar em sua casa. Com efeito, não se pode transmitir de maneira arbitrária o Evangelho. Jesus Cristo fá-lo de uma forma única e esta cena de Jericó é um claro exemplo. Na cidade vive Zaqueu, um homem conhecido por todos com uma identidade bem definida – um pecador. Para Jesus, é uma simples pessoa que vive «perdida». Por isso, procura-o com o seu «olhar», chama-o pelo seu nome, sem negar o que era e muito menos o que significava o seu nome para a multidão que O rodeava. Mas mais, oferece-lhe a Sua amizade, querendo assumir o mundo, as vivências e as relações em que vivia Zaqueu, por isso, o desejo de ficar sua casa.
Com esta cena, a atuação de Jesus apresenta-nos as condições iniciais do «acolhimento pastoral». Acolhido, respeitado e compreendido por Jesus na verdade do que é, aquele homem pode relacionar-se, converter-se e reorientar a sua vida.

A atuação de Jesus é mesmo surpreendente. Ali não é visto como um representante da lei, mas como o Profeta da compaixão, que acolhe a pessoa com o amor fascinante do próprio Deus. Não parece preocupado pela moral, mas sim pelo sofrimento concreto daquela pessoa «perdida». Não se vê obsessivo por defender a doutrina, mas atento àquele homem que não tinha ainda uma maneira sã de viver. Aliás, em toda a Sua vida e a Sua missão, Jesus não caminha pela Galileia numa atitude de «conquista». Oferece-se, convida, propõe um caminho diferente para o viver de todos e de cada um.
O «acolhimento pastoral» não pode deixar de estar referenciado na atuação do «divino mestre»: acolher o que o outro é; escutar e sentir o pulsar do seu viver, inserido na sua realidade, estabelecendo cordialidade e amizade, para que a mudança aconteça. Que fique certo! O «acolhimento pastoral» nunca pode deixar de assumir amorosamente o que a pessoa é, quando se aproxima e pede, com ou sem consciência, algo da Igreja. Sem este respeito pelo que ela é, jamais chegará a ser aquilo que Deus dela quer. Desde o cartório paroquial à reunião de pais das crianças da Catequese, jamais se pode esquecer a forma de Jesus atuar com Zaqueu. Exige este sintonizar com o outro que aparece na Igreja e, com amizade gratuita e livre, compreender a «frequência existencial» onde vive, descortinando o que aí existe de dor, de sofrimento e de desamor, mas também, de verdade, de bem e de beleza.

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